Discurso de que votar na esquerda é pecado perde força entre evangélicos, analisa sociólogo
- 1 de novembro de 2026
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Artigo de Valdinei Ferreira para a Folha de S.Paulo aponta mudanças no debate político-religioso e questiona a associação entre fé cristã e oposição à esquerda.
O uso de argumentos religiosos para afastar eleitores evangélicos da esquerda perdeu força na eleição presidencial de 2026, na avaliação do sociólogo Valdinei Ferreira, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e fundador do Mapa Centrante. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o autor afirma que votar em candidatos de esquerda foi menos proibitivo para esse segmento religioso do que nas eleições anteriores.
Ferreira aponta que a extrema direita evangélica recorreu, nas últimas disputas eleitorais, à estratégia do chamado pânico moral. Segundo ele, essa abordagem dificultava o debate racional sobre temas como aborto, feminismo e direitos da população LGBTQIA+, fazendo com que o voto em candidatos dispostos a discutir políticas públicas relacionadas a essas questões fosse apresentado como pecado para os cristãos evangélicos.
Embora deputados estaduais e federais tenham conquistado votações expressivas utilizando esse tipo de discurso, o autor avalia que a estratégia perdeu força na eleição presidencial. Um dos sinais dessa mudança, segundo ele, foi a aceitação resignada do resultado das urnas por pastores bolsonaristas.
Governo Lula e perda de força do discurso moral
Na análise de Ferreira, fatores internos do campo evangélico ligado ao bolsonarismo e acontecimentos relacionados ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva contribuíram para o enfraquecimento dessa estratégia.
O autor destaca que o governo Lula não fechou igrejas, ao contrário do que pastores bolsonaristas afirmavam durante as eleições de 2018 e 2022. Também não promoveu, segundo o artigo, campanhas contra o modelo de família tradicional, como alegavam setores mais radicalizados da direita.
Outro argumento que teria perdido força entre os evangélicos é o de que a esquerda seria favorável ao aborto. Ferreira cita o deputado Otoni de Paula, que contestou essa afirmação ao apontar que Lula nunca apresentou nem solicitou a aliados a apresentação de um projeto de lei sobre o tema.
O sociólogo também atribui importância à atuação de evangélicos de esquerda que mantiveram o apoio ao presidente. Mesmo sem a visibilidade de grandes líderes pentecostais e neopentecostais, esse grupo, segundo ele, contestou a ideia de que a fé cristã seria incompatível com posições políticas de esquerda.
Essa associação entre cristianismo e oposição à esquerda foi defendida repetidamente por líderes religiosos como Silas Malafaia, André Valadão e Valdemiro Santiago.
Escândalos enfraquecem discurso de superioridade moral
Outro fator apontado pelo autor é o impacto de escândalos morais envolvendo figuras ligadas ao meio evangélico e à família Bolsonaro. Na avaliação de Ferreira, esses episódios reduziram a força da narrativa que apresentava a disputa eleitoral como um confronto entre a luz e as trevas.
O artigo menciona as ligações de Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel com a Igreja Batista da Lagoinha. Para o sociólogo, acontecimentos relacionados a pessoas do próprio campo evangélico enfraqueceram a imagem de que os evangélicos de extrema direita seriam uma barreira contra uma suposta imoralidade promovida pela esquerda.
Ferreira também critica a participação do influenciador evangélico Pablo Marçal na estratégia de campanha de Flávio Bolsonaro. Segundo o autor, a utilização de um laudo médico falso por Marçal contra o então adversário Guilherme Boulos, durante a eleição municipal de São Paulo, demonstrou como a pauta moral poderia ser subordinada a interesses eleitorais sem compromisso ético.
O sociólogo ainda cita a informação de que Flávio Bolsonaro teria atuado em defesa de um policial envolvido no assassinato de uma criança, além de mencionar a postura do senador diante de um adversário octogenário. Na avaliação do autor, esses episódios prejudicaram a pretensão da extrema direita de se apresentar como defensora da família.
Ferreira argumenta que o respeito às crianças e aos idosos deveria ser considerado um dos pilares da estrutura familiar.
Contradições dentro do campo evangélico
Ao concluir, o autor ressalva que falhas morais individuais não devem ser atribuídas a todo o segmento evangélico. No entanto, argumenta que, quando um grupo religioso assume a própria superioridade moral como elemento de disputa política, seus integrantes ficam sujeitos a comparações com o comportamento daqueles que criticam.
Para Ferreira, as contradições observadas entre o discurso moral e as atitudes de figuras ligadas à extrema direita evangélica contribuíram para reduzir a eficácia do pânico moral como ferramenta eleitoral.
O sociólogo encerra a análise recorrendo ao Evangelho de Mateus, capítulo 7, versículo 2: “O padrão de medida que adotarem será usado para medi-los”.
Fonte: Folha de S. Paulo
Fonte: Folha Gospel


