O Messias rejeitado: Derrota histórica expõe tensão entre poder e fé
- 30 de abril de 2026
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Ontem, não apenas quem acompanha a política – seja por interesse ou por dever de ofício – testemunhou a rejeição de Jorge Messias ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal no Senado Federal, mas também grande parte da sociedade interessada nos rumos que o Judiciário brasileiro pode tomar.
Na votação realizada nesta quarta-feira (29), o indicado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi barrado por 42 votos contrários e 34 favoráveis, não alcançando os 41 necessários para aprovação, marcando um dos episódios mais emblemáticos da política brasileira recente.
Na avaliação de diversos analistas políticos que acompanhei, o resultado não representa apenas uma derrota pessoal de Jorge Messias – que se empenhou intensamente, ao longo de cerca de cinco meses, visitando senadores em busca de apoio para chegar ao topo do Judiciário –, mas também um marco histórico.
Pela primeira vez em mais de 130 anos, o Senado rejeita um indicado ao Supremo Tribunal Federal. O último caso semelhante ocorreu em 1894, durante o governo de Floriano Peixoto.
Os motivos da rejeição
A derrota de Jorge Messias não ocorreu por acaso, afirmam comentaristas. Ela reflete um conjunto de fatores políticos e institucionais que se acumularam nos bastidores. Entre os principais, destacam-se:
– Resistência política no Senado: setores da oposição e parte do chamado “centrão” já demonstravam desconforto com a indicação.
– Falta de articulação eficaz do governo: analistas apontam dificuldades na construção de apoio suficiente dentro da Casa.
– Disputa interna por poder: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, defendia outro nome para a vaga.
– Momento eleitoral: com eleições próximas, parlamentares preferiram não fortalecer o governo com mais uma indicação ao Supremo.
– Críticas institucionais ao STF: parte dos senadores vê a Corte como excessivamente ativa, o que influenciou o ambiente da votação.
Entre a política e a fé
Jorge Rodrigo Araújo Messias, de 45 anos, natural de Salvador, é evangélico e ligado ao meio batista.
Essas “credenciais” deram a ele diversos apoios de figuras influentes no meio evangélico, entre políticos e líderes de denominações.
Uma dessas manifestações públicas veio por meio de uma publicação do ministro André Mendonça, também evangélico e pastor licenciado. Após a derrota de Messias, ele escreveu:
“Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande Ministro do Supremo. Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF. E amigo verdadeiro não está presente nas festas; está presente nos momentos difíceis. Messias, saia dessa batalha de cabeça erguida. Você combateu o bom combate! Deus o abençoe! Deus abençoe nosso Brasil!”
Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande Ministro do Supremo.
Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF.
E amigo verdadeiro…
— André Mendonça (@MinAMendonca) April 29, 2026
Messias, que é servidor público, disse considerar que a rejeição da indicação é apenas mais uma etapa em sua vida e que veio após um processo de tentativa de “desconstrução” do seu nome por meses, desde o anúncio da indicação até a votação.
Em entrevista após ter seu nome rejeitado para ocupar um cargo no STF, Messias, que chegou a se definir como “servo de Deus” na sabatina, disse:
“Temos que aceitar. O Senado é soberano e se manifestou.”
E acrescentou:
“Sou grato a cada voto que recebi. Cada um cumpre um propósito, e eu cumpri o meu.”
O episódio carrega um simbolismo inevitável: um homem chamado Messias rejeitado em praça pública no ambiente político por atitudes que muitos evangélicos também repudiaram. Entre elas, sua posição sobre a assistolia fetal, procedimento médico que interrompe os batimentos cardíacos do feto.
Na Advocacia-Geral da União (AGU), em parecer enviado ao Supremo no âmbito da ADPF 1.141, Messias considerou inconstitucional a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que buscava proibir o uso da assistolia nos casos de interrupção de gravidez já previstos em lei, como nas situações decorrentes de estupro.
Durante a sabatina, afirmou ser contra o aborto. No entanto, para críticos, sua atuação institucional acabou tendo mais peso do que sua própria declaração.
Ao comentar o resultado desfavorável a Jorge Messias, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), que, durante a sabatina, chegou a abraçá-lo, afirmou que “lamentavelmente, algumas decisões dele na AGU foram muito mal compreendidas pelo segmento evangélico”.
Adriana Bernardo (@adrianammbernardo) é jornalista, escritora e idealizadora do grupo feminino cristão “Amigas de Deus”. Professora de Teologia e Aconselhamento. Casada com Bene Bernardo, é mãe de Raphael, Aline e Guilherme, e avó de Raquel, Daniel e Júlia.
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Fonte: Guiame



